sábado, 18 de agosto de 2012

Liam Neeson - Action Hero, Parte 2: "A Perseguição" ou, como prefiro chamar o filme, "Luta com Lobos"


Antes de falar sobre "A Perseguição" (The Grey - e fico estarrecido, mais uma vez, pela genial criatividade do título nacional. Não sei como não traduziram Saving Private Ryan como "A Guerra Impiedosa"), divagarei, preliminarmente, sobre seu diretor, Joe Carnahan, ou como eu o descreveria, antes de ver o filme, "aquela promessa que não se cumpriu". Gostei muito de Narc, seu segundo filme. Não vi Blood, Guts, Bullets and Octane, sua primeira obra como diretor (que agora, com certeza, vou assistir), mas Narc me deixou com a impressão de que se tratava de um cineasta promissor. A trama, que, a princípio, parecia matéria-prima de um filme manjado, acabou se revelando complexa e intrigante; os personagens são complicados pra caramba e o final é aberto de uma maneira completamente satisfatória (do tipo "a idéia é que o espectador realmente pense e tire suas próprias conclusões", ao contrário, por exemplo, do final retardado e irritanto dos Sopranos, que é do tipo  "Veja como eu sou um Artista Pretensioso"). E, ao contrário da maioria dos filmes que utilizam tal recurso, a tremedeira da câmera serve a um propósito.

Então veio seu filme seguinte, Smoking Aces e conclui: "Até que não é de se jogar aos cachorros, mas, francamente... agora é que ele entrou na onde de macaquear Pulp Fiction?" Depois, veio o remake/reboot/reimaginação/sei-lá-qual-é-a-novo-termo-que-inventaram-pra-essas-porras do Esquadrão Classe A e pensei: 1) mais um desses?; 2) a fixação do Hannibal Smith em ver "a plan come together" está ficando doentia; 3) prefiro o Mr. T; e 4) recuso-me a acreditar que o Carnahan vai entrar numa fase de tentar imitar a porra do Michael Bay. Não que o filme seja horrível (é razoável, se você não tiver nada de interessante para fazer), mas fiquei decepcionado. Por volta de 2008, 2009 surgiu um boato de que o fodástico livro White Jazz, de James Ellroy (se não leu, leia tudo que homem escreveu desde A Dália Negra - trata-se, em minha opinião, do melhor escritor de ficção policial de todos os tempos) seria adaptado por Joe Carnahan, com George Clooney no papel da alma sebosa principal (é uma daquelas histórias em que não há conflito entre o bem e o mal, mas entre os maus e os piores) e me empolguei, ainda com base em Narc - minha opinião sobre o visual deste filme foi "parece as coisas que eu imagino quando leio uma obra do Ellroy". O tempo passa, a adaptação é engavetada (o roteiro está há anos no development hell) e o diretor resolve dedicar todo seu potencial a... mais um seriado dos anos 80 requentado nos cinemas? Sério? Cacete... Só quem conseguiu fazer isso e escapar incólume foi o Michael Mann e um Joe Carnahan, tudo indica, está bem longe de ser um Michael Mann.

Não perco, todavia, as esperanças. Daí sai a nova obra do rapaz e a sinopse não é das mais animadoras (reação de minha esposa, verbis: "Vai pra porra! De jeito nenhum vou assistir esse filme idiota, manjado e cheio de clichês!"). Basicamente, "avião cai no Alaska e os sobreviventes têm que lutar para escapar da neve e lutam com lobos." Realmente, parece a descrição de pelo menos uns vinte filmes vagabundos, mas... peraí... os caras tem que lutar com lobos? Um bando de casca-grossa ("cascas-grossas?") que trabalham para uma empresa de petróleo? Que têm que sair, literalmente, no braço com lobos? E o lider dos brucutus é meu mais novo parâmetro de badassery, Liam Neeson? "Inconcebível!", exclamei, encarando o monitor de forma ameaçadora. "Isso deve ser uma metáfora. Só pode ser fruto do senso de humor mórbido de um Criador cruel, que gosta de brincar com minhas emoções. Não é possível que tenham feito, na Hollywood contemporânea, um filme sobre um bando de brutamontes na neve, trocando pancadas com uma matilha de lobos. Isso é quase tão foda quanto Franco Nero interpretando um cara que dá porradas na cara de tubarões ou um zumbi lutando com... eh... um tubarão (eu gosto muito de ver lutas envolvendo tubarões). Esse tempo já passou. Eu sou o último de minha estirpe."

Como diria o narrador de comerciais da Globo, nos anos 80, sobre os espectadores que pensavam que o Jason tinha morrido no último filme da série, eu estava redondamente enganado.


Surpreendentemente, o filme é muito bom mesmo se tirarmos os lobos da equação (o que, é claro, não faremos, pois... que canalha ordinário faria isso?). Joe Carnahan, constato aliviado, não vai tentar imitar o Michael Bay. The Grey é um filme que parte de uma fórmula batida, mas se torna empolgantes graças a a um roteiro enxuto, excelentes caracterizações, diálogos ocasionalmente hilários (é o filme "sério" que mais me fez rir desde Os Infiltrados) e a direção de um Joe Carnahan que, como mencionei no último post, prova que não era um engodo. Analisemos a obra.

Ottway (Neeson) é um homem atormentado. É o que se pode inferir da melancólica carta (bilhete de suicídio?) escrita pelo cidadão e recitada durante as cenas de abertura do filme: "Um trabalho no fim do mundo. Um matador para uma grande empresa petrolífera. Não sei por que fiz metade das coisas que fiz, mas sei que aqui é meu lugar. Cercado por minha espécie. Ex-condenados, fugitivos, andarilhos, escrotos. Homens inadequados para a humanidade. Não se passa um segundo sem que eu pense em você de alguma forma. Eu quero ver seu rosto. Sentir suas mãos nas minhas. Senti-la contra mim. Eu sei que isso nunca será. Você me deixou. E não posso recupera-la. Prossigo como imagino que os condenados o fazem: amaldiçoado. E sinto que é só uma questão de tempo. Não sei por que estou escrevendo isto. Não sei em que isto pode resultar. Eu sei que não posso tê-la de volta. Não sei por que isso aconteceu conosco. Sinto que é por minha causa. Má sorte. Veneno. E deixei de ter alguma utilidade real para este mundo. Mais uma vez em combate. Na última boa luta que jamais conhecerei. Viva e morra neste dia. Viva e morra neste dia."

Então, Liam Neeson está interpretando um sujeito infeliz, em plena crise existencial ensejada por uma intensa dor-de-cotovelo? Para ser sincero, isso é um negócio meio emo. Uma involução - de "eu vou procurá-los, eu vou encontrá-los e eu vou matá-los", passamos para "Ai de mim! Minha amada me deixou? Ó escuridão eterna da minha alma?" Francamente, Ottway, esse tormento todo por causa de um chega-pra-lá? O que é que o rapazinho vai fazer? Se vestir de preto e postar poemas sobre a morte? Mudar o perfil no Facebook para "é complicado"? Redescobrir as crônicas vampíricas da Anne Rice?


Merda. Esqueci que agora ideia não tem acento. Mas isso é irrelevante. Voltando ao tópico, a resposta é "não, nenhuma das opções." Felizmente, não estamos falando do Rauã, o metrossexual que gosta de postar videos de si mesmo lendo poemas melancólicos no YouTube. Estamos falando do homem que treinou o Batman, quase destruiu Gotham City e, depois, assassinou toda a máfia albanesa em menos de uma semana. E como tal homem lida com tamanha crise existencial?

Ele vai para o Alaska, trabalhar para a indústria de petróleo (o que, em si, já é uma ocupação badass). Mas que tipo de trabalho, exatamente? Matar animais que possam ameaçar os trabalhadores - como lobos e, presume-se, ursos, orcas, lulas gigantes, krakens e o Abominável Homens das Neves. Lembra os colegas de Ottway, que ele descreve como gente desajustada e perigosa demais para viver em sociedade? Pois é, quando aquele tipo de gente precisa de proteção, o patrão recorre ao Ottway. Esse é o conceito de terapia dele: ir para o meio do nada, no Alaska, proteger brutamontes de monstros da fauna local. É assim, amigos, que um homem de verdade lida com as tristezas da vida: transformando-se, essencialmente, num ronin. Se este fosse um filme produzido há cinquenta anos e o contexto fosse o Japão feudal, o protagonista seria interpretado pelo Toshiro Mifune. De repente, o que, a princípio, parecia um personagem meloso e lamuriento se torna um badass amargurado, digno de um Bogart ou Mitchum.

O filme começa, como já dito, com um monólogo e cenas mostrando Ottway, vagando sozinho, chegando a um bar e tomando uma dose de uísque, indiferente a um quebra-pau que está rolando no recinto; relembrando sua amada perdida, sua infância (que guarda vínculo com parte do monólogo, o qual é explicado mais tarde); matando, com um rifle de mira telescópica, um lobo que se aproxima do sítio; e, finalmente, cogitando (conforme imagem acima) cometer suicídio. Trata-se de um abertura claramente dirigida pelo mesmo cineasta responsável por Narc, não pelo cara de Esquadrão Classe A: a sobreposição do monólogo, declamado com gusto pelo irlandês, com cenas que ilustram como o meio em que o protagonista vive é tosco e desolador, suscitam uma atmosfera genuinamente melancólica. O sofrimento silencioso do personagem é quase palpável, com o perdão do clichê.

Encerrado o trabalho, chega a hora de os personagens voltarem "para casa". Eu imagino que tipo de lar esses caras têm - Ottway, com certeza, está Sozinho no Mundo e, certamente, Não Tem Lar. Mas, prosseguindo, Ottway embarca num avião, junto com um monte de brucutus que inclui o Dermot Mulroney (que fim levou esse cara?), o outro falso policial que o Matt Damon mata no final de Os Infiltrados (eu sabia que lembrava dele de algum lugar!), aquele negão (ou afrodescendentão, para usar a terminologia politicamente correta) que tenta xavecar a Daenerys na segunda temporada de Game of Thrones e Flannery, um pentelho que não pára de puxar conversa chata (Joe Anderson). E já começo a criar empatia com o Ottway: confrontado com a xaropice verborrágica (eu sei como é irônico eu criticar essa característica) do Flannery, ele simplesmente esclarece que "olha, eu não estou a fim de conversa, ok? Vou só reclinar a cabeça aqui e fechar os olhos". Eu já fiz coisa parecida uma vez e a reação do interlocutor foi a mesma do chato do filme em questão: me encarar por um instante como se eu fosse o indivíduo mais cruel do mundo, depois resmungar um "ok, sem problema" e se sentar em outro canto. Porra, é crime querer encurtar uma viagem tediosa com um cochilo, ao invés de ouvir o papo chato de um desconhecido? Tenho a impressão que Carnahan concorda comigo.

Enfim... Ottway acaba cochilando, sonhando com sua amada, fortes turbulências começam a provocar um forte desconforto nos passageiros, o idiota do Flannery começa a falar sobre o que fazer caso o avião caia, todo mundo se emputece e ameaça, com razão, cobrir o zeba de porrada e...

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Sem exageros, trata-se da cena de desastre aéreo mais imersiva da história do cinema. Eu, particularmente, nunca tive medo de viajar de avião. Nem quando era criança. Na única ocasião em que suspeitei que o avião ia cair, minha reação não foi medo: foi procurar a saída de emergência mais próxima e tecer uma análise pragmática, porém pouco louvável: "Aquele cara sentado perto da saída de emergência é menor do que eu. Se este troço cair, dou uma porrada nele, abro a porta e escapo antes de todo mundo. Os tubarões podem até me pegar, mas nem a pau vou morrer afogado dentro deste trambolho (estávamos sobrevoando o Atlântico)." Isto posto, a cena da queda da queda do avião, como demonstra o vídeo acima, me deixou angustiado durante toda sua duração. E fica aqui uma lição para a turma da câmera trêmula: é assim, seus debilóides, que se usa shakycam combinada com cacofonia.

Os poucos sobreviventes se deparam com perspectivas nada animadoras: Ottway, que imediatamente assume a liderança, observa, sem ilusões, que seus empregadores provavelmente não enviarão uma equipe de resgate das mais robustas ("Vocês têm idéia de quanto esse acidente vai economizar na folha de pagamento?" exclama um dos sobreviventes) e, ainda que envie, as chances de resgate são mínimas. Em outras palavras: os "sortudos" que escaparam de morrer na queda do avião terão que se virar para não morrer na neve. Na primeira noite, Ottway descobre que tal missão vai ser ainda mais ingrata do que se imaginava: aproximando-se do que pensava ser um sobrevivente se movendo, ele acaba descobrindo que se trata, na verdade, de um cadáver sendo devorado por lobos gigantescos.

O protagonista é atacado, mas escapa, com a intervenção dos sobreviventes, que ficam chocados com o ocorrido. Afinal, como todo mundo sabe, lobos não tendem a atacar seres humanos. Exceto, é claro, como observa Ottway, quando 1) em número superior; 2) famintos; ou 3) quando humanos invadem seu território, tornando-se uma ameaça. Ottway acalma os amigos, aduzindo que a matilha provavelmente está de passagem e que é altamente improvável que a situação se enquadre nos três itens retromencionados, mas, como o espectador familiarizado com a Lei de Murphy pode deduzir, o pior se concretiza e a neve vai ser a menor das preocupações de Liam Neeson e sua trupe. Na verdade, o comportamento dos lobos neste filme é completamente fantasiosa. Mesmo em matilha, se a opção for entre atacar humanos ou fugir, a opção dos lobos geralmente é fugir. Mas, se eu quisesse aprender esse tipo de coisa, assistiria ao Discovery Channel. Se filmes sempre tentassem retratar o comportamento de animais de forma fidedigna, o Tubarão de Spielberg seria simplesmente a história de 15 minutos sobre um hippie que vai nadar, volta pra casa e fuma um baseado. E aviso para quem não viu o filme: a partir daqui SPOILERS.  Só posso reiterar que The Grey transcede a fórmula batida, segue um tema mais profundo que só se revela no final, comprova que Liam Neeson é o cara mais badass do mundo ocidental e que ainda há gente que sente falta de action heroes como se faziam até a década de 70.

Ainda não consegui convencer minha esposa a ver esse filme e suspeito que, mesmo que assistisse, ela não gostaria muito da obra. Digo isso porque, apesar de me considerar um sujeito bastante progressista, não engulo a baboseira feminazi de que a única distinção entre homens e mulheres é biológica. Em resumo: sabe aquela sequência em Sintonia de Amor (Vão pra porra, eu assisti ao melô estrelado por Tom Hanks e Meg Ryan porque fui... coagido por um criminoso sádico, que me sequestrou e obrigou, a mão armada, a assistir tal bobagem. Ele fez isso com várias pessoas na minha cidade, mas, felizmente, nós conseguimos capturá-lo e assassina-lo com requintes de crueldade [antes de morrer, ele foi forçado a ver Manos - The Hands of Fate]) na qual se exibe, de um lado, as mulheres, aos prantos, vendo Tarde Demais Para Esquecer e, de outro, os marmanjos, aos prantos, vendo Os Doze Condenados? Acredito que tal cena é um profundo comentário sobre as peculiaridades psicológicas de gêneros. Em outras palavras, acho que há certas coisas (obras de arte, como o filme em análise, por exemplo) dirigidas a uma sensibilidade particularmente masculina e outras (como, digamos, toda a obra de Jane Austen) que atingem idiossincracias femininas. Sendo ainda mais conciso: há certas obras que são "filmes pra macho" e outras que são "filmes de mulé". Não estou dizendo, claro, que todos os filmes se enquadram exclusivamente em uma das categorias - a maioria (porque, claro, todo mundo gosta de dinheiro) tenta apresentar elementos que atraiam ambos os sexos (exemplo típico: 300, com porrada e violência em abundância para o público masculino e um monte de caras sarados e seminus para o público feminino).  

The Grey, contudo, é um "filme pra macho". Aliás, relendo o que acabei de escrever, percebo que este filme tem muito em comum com Os Doze Condenados: as personagens femininas são pouquíssimas (basicamente, só a amada perdida do Ottway e uma comissária de bordo que aparece por alguns segundos e morre no desastre) e o filme gira em torno, basicamente, de caras másculos fazendo coisas viris, seguindo um código de honra peculiar e trocando palavras indelicadas. Estas conduzem a alguns dos já mencionados diálogos hilariantes, a maioria delas envolvendo Diaz (Frank Grillo), o sobrevivente pentelho e resmungão do filme (mais ou menos o equivalente àquele personagem chato do Bill Paxton em Aliens, só que engraçado e sem a covardia) que disputa o papel de macho alfa do grupo com o Ottway (a analogia entre  dinâmica dos personagens humanos e o comportamento da matilha não é muito sutil) e, claro, perde.


Mas não sem antes brindar o espectador com pérolas do pissing contest. A minha preferida, contudo, não sai da boca do Diaz. Ela se verifica quando Ottway o flagra tentando furtar um maço de dinheiro encontrado na carteira de um dos passageiros falecidos:

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Por que é a minha preferida? Bem, no último post, coloquei a imagem de um mal-encarado Neeson com a legenda dizendo algo como, "Essa é a expressão que você vai ver antes de levar uma série de porradas". Pois bem, na cena acima, Ottway, indignado com a falta de respeito, diz, especificamente, que, se o Diaz não largar o dinheiro, vai começar a cobri-lo de porradas em cinco segundos, com uma entonação que que não deixa dúvidas quanto à legitimidade da ameaça. Ele profere o ultimato de forma tão convincente que o escroto cala a boca e obedece. Simplesmente badass

A princípio, contudo, as atitudes de Ottway podem parecer incoerentes. Aqui temos um indivíduo que, no início da narrativa, estava contemplando seriamente a possibilidade de cometer suicídio. De repente, ele sobrevive a um desastre aéreo e acaba liderando os sobreviventes, tentando fazer prevalecer um mínimo de decência em meio ao desespero (ele também convence os demais sobreviventes a catar, ao menos, as carteiras dos falecidos, para entregarem às famílias), elaborar uma  "MacGyver bullshit" envolvendo lanças de madeira e cartuchos de espingardas para  explodir na cara ou na outra extremidade dos lobos (ainda não entendi como tal artifício funcionaria, mas é melhor que nada, creio eu) e exibindo, em geral, uma conduta extremamente pró-ativa. Há, inclusive, uma cena (bastante comovente, sem nenhum sarcasmo), logo após a queda do avião, em que Ottway encontra um dos colegas à beira da morte e tenta aliviar seu sofrimento fazendo com que este pense na pessoa que mais ama. Como conciliar isso coma falta de amor à vida do cidadão?

Uma das explicações é exposta pelo protagonista aos colegas, numa conversa torno da fogueira: o fato de ser completamente materialista, achar que a única existência é a física e, portanto, temer a morte, por considerá-la definitiva. Mas esta não é toda a explicação: trata-se de aparente contradição que, na verdade, está ligada ao tema central do filme. Que tema seria esse? Caras fodões lutando com lobos anabolizados? Sim, mas também há outro tema menos superficial. Este é trazido à tona, para a surpresa do espectador, por Diaz, que, após um baculejo violento do Ottway e um ataque violento de lobo, acaba admitindo que sua xaropice é mecanismo de defesa para lidar com o medo e adotando um comportamento bem mais construtivo. E mais uma vez SPOILERS. Se continuar lendo sem ter visto o filme, não venha me encher o saco dizendo que eu "estraguei o final". Mas, para falar a verdade, nunca entendi muito bem esse negócio de "se me contarem o final, o filme perde a graça". ... E o Vento Levou, O Poderoso Chefão, Senhor dos Anéis - todos eles foram baseados em livros e ninguém deixou de assistir porque "já sabia o final". Mas, como sempre, eu divago. Voltemos ao tema central do filme.
Após uma série de desventuras, os únicos sobreviventes que restam são Ottway, Diaz e Hendrick (Dallas Roberts). Eles estão seguindo o trajeto de um rio (presumindo que este pode levá-los a algum lugar minimamente civilizado), quando Diaz, cujos tornozelos estão completamente escalavrados graças uma queda, decide que vai parar e desistir, pois não aguenta andar mais nem dez metros. Hendrick fica incrédulo e, quando percebe que o amigo não está fazendo manha, emputecido.  "É isso o que você vai fazer?" indaga (estou parafraseando), "Ficar sentado aí e morrer? Depois de tudo que sobrevivemos?" E Diaz explica que ele vai pendurar a chuteira exatamente em razão de tudo a que eles sobreviveram: depois de todos os feitos notáveis que logrou, o que mais a vida pode lhe reservar? Ficar perfurando poço de petróleo todo dia e se embriagando toda noite? Quando é que ele vai se superar depois disso? Em resumo: Diaz acredita que atingiu ápice de sua vida e que, agora, pode morrer em paz, pois nada mais vai chegar perto de suas aventuras na neve. E os outros dois sobreviventes acabam aceitando tal atitude, pois percebem que Diaz está completamente certo.

Ottway e Hendrick prosseguem e, depois mais um confronto com os lobos, o último termina morrendo afogado. É aquele tipo de morte idiota, mas, lamentavelmente, bastante realista: fugindo dos lupinos antropófagos, ele acaba caindo no rio, sendo levado pela correnteza e seu pé fica preso em uma rocha, provocando seu afogamento. Ottway, agora sozinho e cercado pela matilha, se desespera e pragueja contra Deus, pedindo, após uma série de xingamentos ("You phony prick fraudulent motherfucker. Do something! Come on! Prove it! Fuck faith! Earn it!"), que este se manifeste, prove sua existência, dê-lhe algum motivo para prosseguir. Basicamente, sem nenhuma ironia, o personagem esculacha o Criador em busca de motivação. Ante a ausência de resposta, Ottway mostra mais uma vez que não é dado a frescuras. Ele resmunga, exausto, "Foda-se! Eu mesmo vou fazê-lo"; coloca seus negócios em ordem, organizando, cuidadosamente, as carteiras de seus falecidos irmãos de armas e...

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Cacete! Minha reação inicial a essa cena foi: "Caralho! É assim que um homem de verdade enfrenta a morte: partindo pra porrada com um lobo imenso, munido de uma faca e um soco inglês improvisado com cacos de vidro!" Mas a cena final também torna Ottway um personagem muito mais interessante: no início do filme, ele não está aguentando uma dor-de-cotovelo - está de luto! Ele não levou um chega-pra-lá da amada - ela morreu, doente, em um hospital e, por algum motivo, Ottway está convencido de que a desgraça é culpa de sua própria má-sorte. Assim, fica muito mais fácil se identificar com o personagem e o fato de Liam Neeson ter perdido sua esposa em circunstâncias semelhantes apenas torna Ottway mais convincente. Ademais, combinada com a já citada cena do "I'm done" do Diaz, o desfecho do filme revela a verdadeira história que se passou: trata-se da crônica dos últimos dias de um homem que não tem mais qualquer vínculo com a humanidade, que não tem mais razões para viver, mas deseja abotoar seu paletó com dignidade. E consegue: um indivíduo religoso pode entender que Deus atendeu o apelo de Ottway, concedendo-lhe a oportunidade de morrer como um homem. Lutando com o macho alfa da matilha! Não sei você, mas esse é um fim que eu teria orgulho de encarar.

Trata-se, portanto, de um filme fodástico, que recompensou minha fé em Joe Carnahan e confirmou a posição de Liam Neeson como meu herói. E agora, que resta fazer? Eu, partircularmente, não acharia inviável fazer uma sequência. Já imagino até o título: The Grey 2: Another Motherfucking Fray. A trama envolveria, naturalmente, um Ottway zumbi que acaba pegando mais um vôo e o avião cai, desta vez, sobre o Atlântico (seria um roteiro autobiográfico, como os memoirs do James Frey). Mas como matar um Liam Neeson que já está morto? O Ottway-zumbi acabaria ajudando os sobreviventes a... eh... continuar sobrevivendo... e lutaria com tubarões. Isso mesmo: uma sequência de The Grey, só que desta feita, com um zumbi lutando com um cardume de megalodons.

Acredito, porém, que minha idéia não será levada adiante, por incrível que pareça. Mas, verificando a IMDB, percebo que não há motivo para tristeza: estão fazendo Taken 2, o que significa mais porradas desferidas por Mr. Neeson. E o próximo projeto do Joe Carnahan é... PUTA MERDA! Killing Pablo, uma adaptação do livro homônimo de Mark Bowden que narra a história verídica da união agentes americanos, policiais colombianos e um grupo de justiceiros (composto - é sério - de parentes de vítimas do Cartel de Medellin, com apoio financeiro e logístico do Cartel de Cali) que logrou (o título é não é muito sutil) dar cabo do legendário supervilão Pablo Escobar. Cara, minha barba cresceu só de ler isso. O que me conduz ao próximo tópico: Liam Neeson, Pierre Morell e Joe Carnahan conseguiram resolver quase todas as minhas queixas quanto ao herói de filmes de ação contemporâneos, com exceção de uma exigência, a saber, POR QUE A SOCIEDADE DESPREZOU A SUPREMACIA DO BIGODÃO BADASS? Tudo bem, o Ottway tem barba e bigode, mas não é a mesma coisa: trata-se apenas de uma barba por fazer oriunda de desleixo e/ou conveniência climática.

Putz... Esqueci novamente...


Ladies and gentlemen, Mr. Ra's Al Ghul! Prova de que, apesar de tudo, a humanidade ainda tem salvação. Especialmente quando se considera que o Arnoldão vai voltar ao cinema em 2013. Só me resta esperar que a Genesis Rodriguez dê uma de Halle Berry e "acidentalmente" tire a roupa em The Last Stand. É improvável, mas nada é impossível. Exceto morder o próprio cotovelo. E a própria testa. Na verdade, há várias coisas impossíveis, mas a Genesis Rodriguez sem roupa não é uma delas. Não é pedir demais.

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